
OPINIÃO
O DIA EM QUE CRISTO DESAFIOU O MORALISMO RELIGIOSO E SE HOSPEDOU NA CASA DE UM CASAL HOMOAFETIVO
@hermescfernandes
Que segredo silenciado pela tradição se esconde na estrada poeirenta para Emaús?
Não é se sobre parábolas ou milagres, mas sobre "quem" Jesus escolheu para revelar-se logo após a ressurreição. E se a resposta abalar os alicerces daquilo que chamamos de sagrado?
[...]
No caminho de Emaús, dois discípulos - não do círculo dos doze, não homens de prestígio - tornaram-se os primeiros a reconhecer o Cristo vivo. O texto nomeia apenas um: Cléopas. O Outro? Uma ausência gritante. Dois homens, dividindo o mesmo teto, insistindo para que o peregrino (que era Jesus) permanecesse com eles.
A cultura judaica do primeiro século era implacável; homens não dividiam uma casa sem parentesco ou um vínculo socialmente legítimo. A ausência de esposas, filhos ou justificativas no texto é um silêncio ensurdecedor. Dois homens unidos por algo mais radical que a amizade, hospedando o divino em um lar que a lei mosaica consideraria abominação.
A omissão do nome do segundo discípulo não é acaso. É um silêncio estrategicamente humano, um recado cifrado de Lucas: "aqui reside um segredo que o mundo não está pronto para ouvir". Que jogo linguístico é este, onde um nome oscila entre masculino e feminino como um código cifrado? "Cléoapas" - abreviação grega de "Kleopatros", "glória do pai" - ecoa a sonoridade de "Cleopátra", a rainha do Egito.
Não é irônico que, em uma cultura obcecada por genealogias patriarcais, o único nome revelado carregue uma ambiguidade de gênero? E se a "glória do pai" fosse na verdade, um "escárnio divino" à soberba e intolerância humanas? Um filho que, em vez de perpetuar a honra do clã, a subverte ao amar outro homem, transformando a "vergonha" em testemunho silencioso.
A Bíblia não é ingênua. Quando Saul acusa Jônatas de "trazer vergonha" para sua família ao se unir a Davi (1 Sm 20:30) usa a mesma lógica que perseguiria Cléopas: em um mundo onde a heteronormatividade era lei, o amor entre homens não era apenas pecado - era traição ao sangue. Por que, então, Lucas mencionaria apenas um nome, se não para proteger o outro - e a nós - da nossa própria intolerância?
Alguns insistem: "Eram irmãos". Mas quando Jesus Visitava Marta, Maria e Lázaro, os nomes eram declarados sem medo. Por que o anonimato aqui? A resposta é incômoda: talvez porque a verdade desestabilizaria nossa moralidade convenientemente embolorada.
Jesus não hesitou. Aceitou o convite, sentou-se à mesa deles e partiu o pão. E ali, na casa de dois homens que o mundo julgaria indignos, revelou-se plenamente.
A Pergunta que não cala: se fossem uma casal homoafetivo, isso os tornaria menos capazes de hospedar o divino? Ou justamente mais aptos, por conhecerem na pele o peso da exclusão que o próprio Cristo carregou?
Enquanto as pessoas pregam sobre graça, outros a vivem plenamente. o que faz de uma casa ser santuário não é a heteronormatividade, mas a capacidade de reconhecer Cristo no outro. Enquanto a igreja traça linhas doutrinárias na areia, Jesus risca o chão com um graveto, desenhando círculos amplos o suficiente para cabermos todos!
É possível que jamais saibamos a natureza exata daquela relação. Mas o texto é claro: só O viram quando Suas Mãos tocaram no alimento. Não nas sinagogas, não nos sermões - na mesa onde a hierarquia se dissolve.
"Não ardia em nós o coração?", perguntaram, quando Ressuscitado desapareceu diante de seus olhos. E não é casual que Emaús signifique "fontes termais": águas quentes que brotam das entranhas da terra, como metáfora de um amor que aquece e cura justamente os ossos quebrados pelos dogmas gelados da religião.

Fotolito: https://www.diocesesaocarlos.org.br
O mesmo Jesus que prometeu que quem n'Ele cresse do seu interior fluiria um rio de águas vivas (João 7:38) escolheu revelar-se no lugar das fontes de águas quentes - por que o amor que desafia normas não é morno: ferve, queima, transborda.
Aqui está o escândalo: O Cristo ressurrecto primeiro apareceu para mulheres (testemunhas desacreditadas) e depois para dois homens cujo amor desafiava as categorias de sua época. só então apareceu aos apóstolos "ortodoxos".
Será que Deus privilegia os rejeitados? Ou será que os rejeitados é quem entendem, melhor que ninguém, o sabor amargo do cálice e a doçura da ressurreição? Mas a pergunta final não é se Cléopas e seu companheiro eram um casal. É se nós somos dignos de sentar-se à mesa que eles prepararam. Enquanto templos erguem muros, Cristo derruba portões. Enquanto líderes religiosos vetam o pão, Ele o parte com quem o mundo chama de "imundo".
Talvez se os discípulos de Emaús tivessem reconhecido o peregrino que se lhes uniria no caminho, hesitariam em convidá-lo para repousar sob seu teto. Afinal, não seria a primeira vez que a presença de Jesus inspirava um temor reverencial - como ocorrera com o centurião romano, que, mesmo angustiado pela enfermidade de seu servo (um jovem por quem nutria um vínculo que transcenderia a mera hierarquia militar), julgou-se indigno de receber o Mestre em sua casa. naquele episódio, bastava uma palavra à distância para que o milagre se cumprisse.
Mas em Emaús, a dinâmica era outra. Não havia enfermos a curar, nem corpos a restaurar. Havia sim, corações partidos, despedaçados pela cruz, e uma esperança que se esvaía como o sol poente sobre a estrada poeirenta. Jesus não enviaria apenas uma palavra - ele aceitaria o pão partido, o vinho compartilhado, o convite íntimo. porque ali, naquela mesa humilde, não se tratava de restaurar um corpo, mas de reacender uma chama: a revelação de que a morte não era o fim, e que o estranho que caminhara com eles era, afinal, a própria Vida ressurreta.
E talvez essa fosse a diferença essencial: o centurial buscava um milagre; os discípulos, sem saber, buscavam o próprio Milagre. e ele, em vez de permanecer distante, sentou-se à mesa - porque às vezes, Deus não precisa de nossa percepção para agir, mas da nossa hospitalidade despretensiosa para se revelar.
Emaús é um convite à insubmissão: recusar-se a engolir interpretações pasteurizadas e ousar crer que o fogo sagrado da inclusão arde mais forte onde a religião tanta apagá-lo.
A revelação está nas margens, sempre esteve.
ARTIGOS
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Este artigo é um ensaio teórico acerca da relação entre diversidade de gênero e violência. O objetivo foi ampliar a concepção mais comum que é a de que a maior violência experimentada pelas pessoas trans é produto das relações interpessoais. Parte-se da ideia de que tão importante quanto a violência interpessoal, é a violência estrutural, doméstica, no espaço público e institucional perpetrada contra pessoas trans.
REFLEXÃO
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O texto apresenta um recorte acerca dos resultados de observações feitas nos Últimos 4 anos em que, analisa a permanência de LGBT na escola considerando a orientação sexual como uma variável relevante que ao gerar processos de exclusão. Nesse sentido surge a seguinte problemática: Qual a relação entre a condição de ser LGBT com as condições de permanência na escola? Como se configura a permanência desses estudantes no ensino básico? Investiga-se as trajetórias individuais desses estudantes buscando apreender os processos de inclusão/exclusão vivenciados por eles no interior da escola.
